2. ENTREVISTA 15.8.12

GILLES LIPOVETSKY - "O BRASILEIRO TEM PAIXO PELO LUXO"

O filsofo francs, um dos mais polmicos da atualidade, afirma que as pessoas dizem quem so por meio do consumo e prev a ascenso de marcas nacionais em cinco anos
por Paula Rocha

 FACEBOOK - "Nas redes sociais, o indivduo autnomo se revela dependente dos outros. Espera que algum curta sua foto ou faa comentrios", diz Lipovetsky
 
Um dos mais badalados e provocativos filsofos contemporneos, o francs Gilles Lipovetsky, 68 anos,  um especialista em analisar as questes que permeiam a sociedade consumista e de aparncias em que vivemos. O homem moderno tem necessidade de emoo e, para a maioria das pessoas, isso passa pelo consumo, diz ele. Quando voc no tem tantos amores ou grandes emoes, o consumo funciona como um prazer fcil, que traz satisfao momentnea. Autor dos livros O Imprio do Efmero, Luxo Eterno e A Sociedade da Decepo, todos publicados no Brasil, ele prepara para 2013 uma obra sobre as relaes entre o capitalismo e os fenmenos estticos. Nesta semana, Lipovetsky chega ao Brasil para participar da conferncia internacional sobre luxo The New World of Luxury, e falou  ISTO de sua casa em Grenoble, na Frana, onde leciona filosofia.

"Nas classes altas, h um desejo feroz por manter-se jovem. No Brasil, as mulheres falam que, com 40 anos, esto velhas" 

"Quando tnhamos problemas, falvamos com o padre, hoje falamos com o psiclogo. Conversar, pedir conselhos, virou consumo" 

Isto - No Brasil, a classe C tem estabelecido padres culturais, como na msica, que esto sendo adotados pelos mais ricos. Como o sr. v esse fenmeno?  

Gilles Lipovetsky - Esse fenmeno no  exclusivo do Brasil. Ele acontece em outros pases tambm, a exemplo da China, e  um reflexo do novo significado do luxo. Hoje, no h mais regras para o consumo do luxo, j que ele se traduz como uma expresso do individualismo. Cada um tem a sua ideia do que seja luxo. E  a que entram as expresses culturais das camadas populares e experincias singulares, como, por exemplo, comer um prato tpico em uma favela do Rio de Janeiro, o que j se tornou um programa turstico ou de ricos excntricos. O que as pessoas querem dizer por meio do consumo hoje  quem elas so. Querem afirmar sua identidade, e isso vai alm do gosto esttico. E os desejos das pessoas no esto mais fechados em cdigos ligados a determinadas classes sociais.

Isto - Todas as classes sociais desejam o luxo?  

Gilles Lipovetsky - Sim. A populao pobre brasileira tambm deseja muito o luxo. O Brasil  um dos pases onde a paixo pelo luxo  mais evidente. Analisado filosoficamente, ele  uma vitrine do status sensual, e a questo da sensualidade ainda est muito arraigada na cultura brasileira. Vocs se mostram mais e tm paixo por tudo o que  aparncia: o corpo, a riqueza, o prazer. Acredito que nos prximos cinco ou dez anos veremos uma ascenso das marcas brasileiras de luxo, tanto na moda quanto no mercado de cosmticos. O Brasil tambm apresenta um potencial muito grande para o turismo nesse segmento, que ainda deve ser explorado. E o nmero de consumidores de luxo no Pas vai aumentar.  um mercado em plena ascenso.  

Isto - A origem dos produtos ainda importa? 

Gilles Lipovetsky - O consumidor moderno no  mais tradicional. Hoje as pessoas so mveis, ento por que os produtos no seriam? No faz diferena para um comprador se aquele sapato foi feito na Itlia ou na China, desde que ele tenha uma marca, o que, teoricamente, garantiria sua qualidade. J as grifes respondem de formas diferentes a isso. A Chanel, por exemplo, faz questo de que todos os seus produtos sejam fabricados na Frana, enquanto a tambm francesa Herms acaba de fechar uma parceria com uma empresa chinesa para fabricar suas famosas bolsas e artigos de luxo l na China. E eu acho que essas parcerias sero cada vez mais comuns nesse mercado.  

Isto - Qual  o limite para essa globalizao? 

Gilles Lipovetsky - A globalizao no tem um limite, mas o crescimento econmico sim. E esse teto  determinado pelo limite do nosso planeta. Os ecologistas defendem que  preciso mudar nosso modo de vida, consumir menos, ou ento imaginar processos de produo que sejam menos gulosos. Podemos consumir menos produtos materiais e mais servios, limitar o desperdcio e ir atrs de coisas mais sustentveis. No acredito, porm, que o consumo v diminuir. O homem moderno tem necessidade de emoo e, para a maioria das pessoas, isso passa pelo consumo. Quando voc no tem tantos amores ou grandes emoes, o consumo funciona como um prazer fcil, que lhe traz satisfao momentnea. Por isso no vejo o desejo pelo consumo recuar.  

Isto - At que ponto o consumo pode satisfazer algum? Ou determinar sua identidade? 

Gilles Lipovetsky - Vivemos em uma poca em que a grande utopia  a busca da felicidade privada, e o consumo  visto como um dos meios para alcanar essa felicidade. Mas todo mundo sabe que o consumo no faz ningum feliz. Consumir traz satisfao, que no  a mesma coisa que felicidade. Se voc compra um carro, se faz uma viagem, o consumo lhe proporciona uma sensao de evaso, o faz esquecer seus problemas, mas esse sentimento  temporrio. Ento a civilizao hipermoderna tem algo de paradoxal. Corremos atrs de algo que no d felicidade, nem infelicidade. Mas no devemos diabolizar o consumo.  fcil criticar o consumo quando temos muito, mas os mais pobres aspiram ao consumo, pois ele significa progresso. As pessoas vivem melhor com boa sade, e isso no pode ser desassociado do consumo, pois precisamos comprar remdios e ir ao mdico para vivermos saudveis. O consumo tambm  capaz de abrir um leque de possibilidades culturais. Por meio dele podemos conhecer o mundo e outras culturas, e isso nos ajuda a conhecer melhor a ns mesmos.  

Isto - Como as novas tecnologias e as mdias sociais esto afetando a forma como nos vemos e lidamos com nossa aparncia? 

Gilles Lipovetsky - A coisa mais surpreendente das novas mdias sociais  o paradoxo do individualismo. As pessoas adoram dizer que querem manter sua autonomia e individualidade, mas no  isso que transparece nas redes sociais. Ali, o indivduo autnomo se revela dependente dos outros e da aceitao alheia. Por que as pessoas escrevem no Facebook? Cada um que escreve espera um retorno. Espera que algum curta sua foto ou espera comentrios positivos, espera, enfim, a aprovao dos outros. Nas redes sociais todos somos exemplares. Colocamos apenas nossas melhores imagens e exibimos nossas melhores qualidades, justamente porque queremos que as pessoas nos aprovem. Por outro lado,  preciso ser otimista em relao a essas novas formas de comunicao. Muitos crticos afirmam que hoje as pessoas s tm relaes virtuais, online, e que no h mais relaes reais. Mas isso no  verdade. As pessoas que esto conectadas tambm se encontram fisicamente. Ento  claro que a relao virtual no destri o desejo de ligao fsica. Isso  um mito. 

Isto - Na sociedade atual,  mais importante ser rico ou jovem? 

Gilles Lipovetsky - Nas classes mdia e alta, h hoje em dia um desejo feroz por manter-se jovem. Fao muitas conferncias sobre a beleza e, no Brasil, as mulheres vm me falar que, com 40 anos, esto velhas. A exigncia de parecer jovem se tornou algo importante. Antes o importante era mostrar que era rico, agora  parecer jovial. Nos EUA e na Europa as mulheres j gastam mais com hidratao, ou com botox e cirurgias estticas, do que com produtos de maquiagem. No Brasil voc v mulheres com cabelo branco (risos)? A cultura brasileira ensina que as mulheres precisam esconder a idade tingindo os cabelos. Alguns estudiosos dizem que esse fenmeno  uma tirania e no vai durar; vamos ter de aceitar nossa idade. No acredito nisso, essa  a cultura moderna. No acredito que vamos recuar com a cultura da juventude. Penso que um dia teremos tcnicas muito mais avanadas para nos manter sempre jovens.  

Isto - Como descreveria, citando uma expresso sua, o mundo de hiperconsumismo em que vivemos? 

Gilles Lipovetsky - Tudo no dia a dia depende de uma compra. Somos constantemente obrigados a comprar. Se voc sai, tem de pegar o carro, o avio, e isso implica gastar dinheiro. Pense em coisas que antes no eram consumidas. Da ltima vez que estive em So Paulo o motorista me levava ao hotel, e, no caminho, via as pessoas correndo em academias, em esteiras. As pessoas hoje pagam para correr, sendo que antes corramos de graa. Antes, para nadar, amos aos rios. Agora precisamos pagar para frequentar piscinas. Antes, quando tnhamos problemas pessoais, falvamos com o padre e ele dizia o que fazer. Hoje falamos com o psiclogo. O gesto mais elementar da vida, que  conversar, pedir conselhos, virou consumo, pagamento.  

Isto - O sr. diz que vivemos na sociedade da decepo. Por que, apesar de todo o progresso, estamos mais tristes do que nunca? 

Gilles Lipovetsky - O problema da sociedade da decepo  que sentimos que nunca estamos consumindo o suficiente. O lado ruim do consumo no  somente o excesso, mas tambm o fato de que muitas pessoas sofrem porque acham que no consomem o suficiente. Se voc no tem internet ou telefone celular, se sente infeliz. O mundo no qual estamos entrando  um mundo competitivo e difcil. As necessidades so enormes, e as pessoas no podem pagar por todas elas. A o dficit de consumo vira um drama. Antes, as pessoas ficavam em casa nas frias e no sofriam com isso. Hoje, se voc nunca sair de seu bairro, voc ficar triste. Mudar tornou-se essencial. Mas, como o dinheiro no  proporcional aos desejos de consumo, h uma frustrao.  

Isto - Por que no gosta da expresso tirania da felicidade? 

Gilles Lipovetsky - Eu penso que a expresso  excessiva. A verdadeira tirania hoje acontece na Sria, onde o Estado massacra sua prpria populao. No podemos esquecer que a sociedade de consumo contribuiu para pacificar a populao, pois, por meio do consumo nos sentimos mais cidados, mais parte de algo comum. Isso  verdade na Europa, e tambm no Brasil, apesar de a sociedade brasileira ainda apresentar nveis altos de desigualdade e violncia.  

Isto - O sr. consome produtos de luxo?  

Gilles Lipovetsky - Amo charutos. No fumo muito, em mdia um por dia, mas definitivamente no so charutos de luxo (risos). A questo do luxo me apaixona, revela coisas interessantes sobre a condio humana. Voc pode achar estpido, suprfluo, mas no .  
